PROJECTO RUÍNAS apresenta

CONSTANTIN GAVRILOVITCH ACABA DE SE MATAR
uma criação de Carlos Marques a partir do texto de Rui Pina Coelho

Teatro Meridional, Lisboa
29 Maio a 9 Junho 2013 (qua a dom), 22h00
Reservas: 218689245 | 918046631 | geral@teatromeridional.net

Cine-Teatro Curvo Semedo (blackbox), Montemor-o-Novo
16 a 18 Maio 2013, 21h30 | 19 Maio 2013, 15h30 e 21h30
Reservas: 266 898 103 ou Posto de Turismo de Montemor-o-Novo.

Sobre Constantin Gavrilovitch acaba de se matar
Por Rui Pina Coelho

Constantin Gavrilovitch acaba de se matar, constitui com Baquet ou a Narrativa fidedigna do terrível incêndio ocorrido no Teatro Baquet (Trimagisto, 2012), um díptico sobre a falência do teatro. Em Baquet recuperávamos o relato jornalístico de Jaime Filinto sobre o incêndio ocorrido no Teatro Baquet, no Porto, em 1888 – um dos acontecimentos mais traumáticos da vida teatral do final do século XIX, onde terão perdido a vida cerca de duzentos espectadores. Associávamos – não sem algum despudor – esse terrível incêndio ao incêndio sistémico que faz arder todas as condições de trabalho para os criadores teatrais em Portugal. Esse incêndio era, na nossa perigosa metáfora, o incêndio que fazia arder o nosso teatro e o deixava em ruínas. Mas era, também, simultaneamente, a chama que fazia com que o nosso teatro não se extinguisse. “Estamos aqui”, repetia-se insistentemente – ainda que com falta de ar. Tínhamos, portanto, um teatro a arder; um teatro morto que, apesar de tudo, sobrevivia.

Do início de 2012 para agora, Maio de 2013, as condições de trabalho para a prática teatral deterioraram-se superlativamente. O teatro parece ter ardido de vez. Pelo meio, com Gonçalo Amorim, fizemos implodir a nossa raiva com Um espectáculo para os meus compatriotas (Negócio ZDB, 2012). Foi um espectáculo ruidoso e raivoso, apontado ao Portugal de hoje, um país refém da incompetência dos seus dirigentes; um país que parece não sentir necessidade de ter jovens, artistas ou cidadãos. Era – também – um espectáculo sobre a falência do teatro, um espectáculo que colocava a hipótese: se o teatro servisse para alguma coisa, não haveríamos de deixar que os artistas abandonassem a cidade. Em Constantin Gavrilovitch acaba de se matar somos incapazes de voltar a encher a boca de palavrões e atirá-los, olhos nos olhos, àqueles que odiamos de morte e que entendemos como responsáveis pelo sítio merdoso a que chegámos. Somos incapazes.

Constantin Gavrilovitch acaba de se matar – um texto alheado, elíptico, esburacado – parte da última frase de A gaivota, de Anton Tchekov. Treplev, o criador das formas novas, o artista verdadeiro, o permanentemente insatisfeito, o novo, acaba de se matar. Dorn, sussurando a Trigorin, para que Arkadina não oiça, diz: “leve daqui para fora a Irina Nikolaevna… O Konstantin Gavrilovich matou-se com um tiro”. E começamos precisamente daqui. Logo no início avisamos, sussurando, para que ninguém se assuste: o teatro acabou de se matar. Portanto, em Constantin…, o mundo que apresentamos é o mundo após a morte do criador, da arte. Um mundo sem o poder reconciliador da arte. Um mundo sem teatro. Um mundo de merda, portanto. Aquilo que se segue à morte de Treplev é um mundo fragmentado, estilhaçado – um conjunto de ruínas – uma cidade abandonada, vazia, em cacos (não consigo deixar de pensar em Dresden depois da segunda guerra mundial, cidade onde escrevi boa parte do texto…).

Constantin Gavrilovitch acaba de se matar é constituído por cerca de cinquenta “nanopeças”. São micro-narrativas (se tivéssemos graça, podíamos ter-lhe chamado ipeças, textos para teatro que se podem ler no telemóvel). São textos de formato ultra-reduzido. Chamámos-lhe “nanopeças”: peças muito pequeninas que se podem montar todas juntas ou isoladamente. Como peças de lego – que podem compor muitos objectos diferentes. Podem ser encaradas isoladamente, como haikais – mas, tal como as dispomos aqui, constituem uma constelação volátil de textos. Uma constelação sobre um mundo sem esperança. Onde os bancários choram sem saber porquê. Onde se carrega contra a polícia sabendo que se morrerá. Onde se vive agarrado à raiva. Onde os cabelos vermelhos de uma rapariga linda nunca serão nossos. Onde a vida não parece ter um propósito. Um mundo de merda, portanto.

Estas nanopeças são textos para teatro que são para ser lidos em cena. A relação que pedem ao espectador de teatro é a da leitura – não a da escuta. São textos para teatro que não são pensados para ser ditos por actores – mas antes lidos pelo espectador, desobrigando à sincronia e à acção e atirando o espectador para o recolhimento da leitura, para a introspecção, para a encenação virtual. Atirando o espectador para o recolhimento de um velório. Um velório ao teatro.

Claro que esta atitude fúnebre tem mais de provocação do que de diagnóstico. Queremos mais inspirar à acção do que descrever a nossa inacção. Se declaramos a morte do teatro é porque somos um bocado dramáticos e temos tendência a exagerar. Tal como insistíamos no Baquet, “estamos aqui”. E mesmo depois de mandarmos Portugal para o caralho, nos Compatriotas, ainda aqui estamos. O que queremos é, tal como Tchekov, que olhemos para a maneira como vivemos e que a possamos mudar.

No final há um piano que se avista no meio do Tejo: uma coisa que não parece ter explicação. Uma coisa enigmática, misteriosa – aparentemente nada perigosa. As autoridades não percebem o poder que pode ter um bando de gaivotas a entoar a Internacional. Não vão fazer nada porque já ninguém reconhece na arte a sua potência revolucionária. Vai, portanto, correr tudo bem.

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